São Gonçalo '26

  11 jan. 2026 | 08:00 - 11 jan. 2026 | 19:00
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No próximo domingo, 11 de janeiro, as freguesias de Santa Marinha e Mafamude acolhem a tradicional Romaria de São Gonçalo, uma das mais antigas e genuínas manifestações religiosas e culturais de Vila Nova de Gaia. A celebração é promovida pelos Mareantes do Rio Douro, pela Nova Comissão do São Gonçalo da Rasa e pela Associação de São Gonçalo Antiga da Rasa, contando com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Realizada anualmente no primeiro domingo após o dia 10 de janeiro, data em que São Gonçalo é celebrado pelo calendário litúrgico, esta romaria assinala simbolicamente o início do ano e congrega fé, tradição e identidade popular, envolvendo a comunidade local num ritual ancestral de votos de um Bom Ano.

Este ano, os desfiles têm início às 8h00, estando prevista uma receção nos Paços do Concelho entre as 15h00 e as 16h00, aproximadamente, concentrando-se a partir das 17h00 na Igreja de Mafamude.

As origens da festa remontam ao mundo clássico, às celebrações dedicadas a divindades como Jano e Dionísio, associadas ao ciclo do tempo e da renovação. Com o advento do Cristianismo, estas práticas foram progressivamente reconfiguradas, dando lugar a devoções cristãs que se fixaram no território de acordo com as suas especificidades. Na zona ribeirinha de Gaia, durante a Idade Média, afirmou-se o culto a São Pedro Gonçalves, padroeiro dos homens do mar, que no século XVII viria a ser suplantado pela devoção a São Gonçalo de Amarante.

A esta celebração juntaram-se ainda os cultos de São Cristóvão, protetor dos barqueiros e viajantes, e de São Roque, invocado como defensor contra as doenças contagiosas, particularmente relevantes em contextos portuários. Todas estas invocações permanecem simbolicamente presentes nos três cortejos de festeiros que percorrem as ruas ao som de bombos e tambores, transportando a cabeça de São Cristóvão ou de São Gonçalo, acompanhadas pelas restantes imagens, até à Igreja de Mafamude, onde chegam ao pôr-do-sol.

Ainda hoje, são os Mareantes do Rio Douro que asseguram o transporte da cabeça de São Cristóvão até à igreja da mesma invocação, acompanhados pela imagem de São Gonçalo e por um romeiro trajado de São Roque. O ritual culmina com a entrada solene na igreja, com a cabeça de São Cristóvão voltada para a porta, seguida de orações e ofertas no altar do Santo, num momento carregado de simbolismo e devoção.

A figura de São Cristóvão, cuja lenda remonta ao século III, representa um gigante de força sobre-humana que, após a conversão ao Cristianismo, dedicou a sua vida a ajudar viajantes a atravessar um rio perigoso. Segundo a tradição, numa dessas travessias, transportou uma criança que se revelou ser Cristo, episódio que marcou a sua missão evangelizadora e o conduziu ao martírio. Iconograficamente, é frequentemente representado como um gigante barbado com o Menino às costas, embora existam versões mais raras de inspiração cinocéfala, reflexo de antigas tradições simbólicas.

A imagem da cabeça de São Cristóvão atualmente exposta no Solar Condes de Resende não terá cumprido a tradição do cortejo, permanecendo na igreja até ser doada, antes de 1909, ao então Museu Municipal Azuaga por Bernardo Lucas, figura marcante da educação em Gaia e da ciência forense a nível nacional. Executada em madeira policromada, acredita-se que esta peça possa ter tido origem como elemento de ornamentação naval, atividade com forte expressão nos estaleiros gaienses do século XIX.

Com esta celebração, a Romaria de São Gonçalo reafirma-se como um património vivo do concelho, onde a fé, a memória coletiva e a cultura popular se entrelaçam, reforçando o sentimento de pertença e identidade da comunidade gaiense.

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